Apostolado São Tomás de Aquino

Ubi Petrus, ibi Ecclesia.

  • João Paulo II, Carta aos Bispos do Brasil (10/12/1980)

    PAPA JOÃO PAULO II
    Carta aos bispos do Brasil (10/12/1980)
    TEXTO: JUSTO COLLANTES, S.J., A Fé Católica, Documentos do Magistério da Igreja, 7.288-7.291.


    Através de minha viagem pelo Brasil eu quis reafirmar a convicção primeira, profundamente enraizada em meu espírito, de que a Igreja é portadora de uma missão essencialmente religiosa e cumprir essa missão é seu dever prioritário. O concílio frisou esta verdade quase em cada um de seus documentos e de modo mais significativo na Constituição Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo (1).
    É certo que a missão da Igreja não se confina nas atividades de culto e no interior dos templos. Desde os tempos apostólicos, e certamente inspirada na ação do próprio Jesus, ela sempre procurou inserir-se na comunidade humana, sempre se debruçou sobre a humanidade, à imagem do bom samaritano, para conhecer suas necessidades, curar suas feridas, encorajar seus esforços e apoiar suas iniciativas. Cada vez que, em qualquer nível, um setor da humanidade se empenhou por crescer em qualidade e valor humano, por melhorar suas condições, por promover-se, a Igreja julgou seu dever estar próxima e colaborar. Esta dimensão é hoje mais sentida do que nunca. E no continente latino-americano e no vosso Brasil talvez mais do que em qualquer outro quadrante do mundo, por causa das situações inegavelmente graves em que vivem vossos povos e por causa do papel histórico que a Igreja desempenha em vossos países.
    Mas não é menos certo que a Igreja perderia sua identidade mais profunda — e, com a identidade, a sua credibilidade e a sua eficácia verdadeira em todos os campos — se sua legítima atenção às questões sociais a distraíssem daquela missão essencialmente religiosa que não é primordialmente a construção de um mundo material perfeito, mas a edificação do Reino que começa aqui para manifestar-se plenamente na parusia. Muitas outras instâncias têm o objetivo, o dever e a capacidade de velar pelo bem-estar das pessoas, pelo equilíbrio social, pela promoção da justiça; a Igreja não se esquiva à sua participação nessa tarefa e assume com freqüência mesmo atividades de suplência. Não pode fazê-lo, porém, em detrimento da missão que é sua e que nenhuma outra instância realizará, se ela não o fizer: transmitir como depositária autêntica a Palavra revelada; anunciar o Absoluto de Deus; pregar o nome, o mistério, a Pessoa de Jesus Cristo; proclamar as bem-aventuranças e os valores evangélicos e convidar à conversão; comunicar aos homens o mistério da graça de Deus nos sacramentos da Fé e consolidar esta Fé: numa palavra, evangelizar, e, evangelizando, construir o Reino de Deus. A Igreja cometeria uma traição ao homem se, com as melhores intenções, lhe oferecesse bem-estar social, mas lhe sonegasse ou lhe desse escassamente aquilo a que mais aspira (por vezes até sem o perceber), aquilo a que tem direito, que espera da Igreja e que só ela lhe pode dar.
    Mais grave seria a perda de identidade se, a pretexto de atuar na sociedade, a Igreja se deixasse dominar por contingências políticas, se tornasse instrumento de grupos, ou pusesse seus programas pastorais, seus movimentos e suas comunidades à disposição ou ao serviço de organizações partidárias.
    A vós, Pastores, confio a responsabilidade de conservar a Igreja no Brasil na mais perfeita fidelidade à sua missão essencialmente religiosa. O vosso povo bom e profundamente religioso, mas que sofre de tão agudas carências na sua vida religiosa, espera de vós essa fidelidade e vos será grato por ela. Confio-vos, além disso, a preocupação de que o desejo de estar sempre próxima de todos os homens, especialmente dos mais pobres, e de se fazer promotora e defensora da dignidade e dos direitos do homem, não atenue jamais na vossa Igreja a determinação de preservar sempre a sua verdadeira natureza.
    De resto — mas será ainda necessário recordá-lo, a vós sobretudo, Pastores da Igreja? —, os direitos do homem só vigoram de verdade onde são respeitados os direitos imprescritíveis de Deus, e o empenho por aqueles é ilusório, ineficaz e dura pouco, se se realiza à margem ou no menosprezo destes.


    Notas de Rodapé
    (1) GS 42.